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O que é identidade visual: o que vai dentro e o que fica de fora

Por Renata Maximina10 min de leitura

Identidade visual é o conjunto de decisões visuais de uma marca, organizadas de um jeito que qualquer peça nova nasça reconhecível. Logotipo, paleta, tipografia, elementos gráficos, direção de fotografia, regras de composição e aplicações. Quando alguém me pede “um logotipo”, quase sempre está pedindo isso: que a marca seja reconhecida, que pareça do tamanho do trabalho que entrega e que continue servindo daqui a alguns anos. Um desenho sozinho não resolve nenhuma dessas coisas.

Identidade visual é a parte visível das decisões de uma marca

Identidade visual é a tradução visível das decisões que a marca já tomou sobre o que faz, para quem e como quer ser percebida. Quando essas decisões existem, a identidade traduz. Quando não existem, cada escolha de cor e de tipografia passa a depender de gosto, e gosto não se defende em uma reunião.

Uma imagem que eu uso com as minhas clientes: uma marca funciona em camadas, e cada uma se apoia na de baixo. Por cima ficam os pontos de contato, que é onde as pessoas encontram a marca: o perfil, o site, a proposta, o material impresso. Logo abaixo fica a identidade visual. Na base fica a estratégia, com o posicionamento dentro dela.

A identidade visual mora no meio dessa pilha, e isso explica as duas confusões mais comuns. Ela não é a base, então não decide por quem a marca compete. E ela não é a camada de cima, então não é o post de terça nem a capa do destaque. Ela é o que faz o post de terça e a capa do destaque pertencerem à mesma marca.

O que vai dentro, e a pergunta que cada item responde

Uma identidade visual completa tem sete partes. O que diferencia uma identidade de um conjunto de arquivos bonitos é que cada parte responde a uma pergunta de produção: quando chega uma peça nova, alguém consegue decidir sem perguntar nada para quem desenhou.

Parte O que entra A pergunta que ela responde
Logotipo e versões o desenho do nome, o símbolo, o monograma, a assinatura e as versões reduzida e monocromática como a marca assina em cada tamanho e em cada fundo
Paleta com papéis as cores com função definida (base, apoio, acento, neutros) e a proporção de uso de cada uma qual cor manda nesta peça, e qual aparece só em um detalhe
Tipografia as famílias, os pesos e a escala de tamanhos o que a pessoa lê primeiro
Elementos gráficos padrão, ícones, texturas, molduras, grafismos o que identifica a marca quando o logotipo não aparece
Direção de fotografia enquadramento, luz, tratamento, o que a imagem mostra e o que ela não mostra em que mundo essa marca vive
Regras de composição margens, grid, espaço em volta, posição do logotipo onde cada coisa entra em uma peça que ainda não existe
Aplicações perfil, site, papelaria, apresentação, materiais do atendimento como o sistema se comporta onde a marca aparece de verdade

Três palavras costumam ser usadas como se fossem a mesma coisa, e vale separar. A identidade visual é o conjunto dessas decisões. O brand book é o documento com as especificações técnicas, para quem vai produzir. O caderno de marca é o material de instruções para a cliente, que explica o que é cada item e para que serve cada arquivo. Eu entrego os três, e por um motivo prático: quem recebe só o primeiro volta meses depois sem saber qual arquivo mandar para a gráfica.

Por que eu não apresento o logotipo sozinho

O que fica de fora

Muita coisa que o mercado vende como identidade visual não é identidade visual. Um post bonito, um template comprado, uma paleta salva no Pinterest e um logotipo entregue sem regra de uso. Nenhum desses sobrevive ao teste de produção da seção anterior, porque nenhum deles decide nada sobre a próxima peça.

O template é o caso mais traiçoeiro, porque ele funciona por um tempo. Ele resolve os primeiros vinte posts e trava no vigésimo primeiro, quando aparece um assunto que o modelo não previu. Aí a pessoa improvisa, o improviso se repete, e seis meses depois o perfil tem três linguagens diferentes convivendo.

O logotipo sem regra de uso tem um desfecho parecido. A cliente recebe os arquivos, usa o certo nas primeiras semanas e depois esticou um pouco aqui, trocou a cor ali, colocou o símbolo sobre uma foto escura. A culpa não é dela, porque ninguém disse qual versão usar em cada situação. Regra de uso é parte da entrega.

O registro da marca também fica de fora

Identidade visual dá reconhecimento. Registro de marca dá exclusividade de uso. São trabalhos diferentes, e um projeto de identidade não entrega o segundo. No Brasil, segundo o artigo 129 da Lei 9.279/1996, a propriedade da marca se adquire pelo registro validamente expedido, que assegura o uso exclusivo em todo o território nacional. O registro vale dez anos, contados da concessão, e é prorrogável por períodos iguais, conforme o artigo 133.

Vale saber o que o registro cobre, porque isso raramente aparece nos artigos sobre identidade visual. O Manual de Marcas do INPI, segunda edição, instituída pela Resolução INPI/PR nº 177/2017, prevê quatro formas de apresentação: nominativa (só o nome, sem tratamento gráfico), figurativa (só o desenho, o símbolo ou o ideograma), mista (nome e desenho combinados, ou o nome com grafia estilizada) e tridimensional (a própria forma plástica do produto). Desde 1º de outubro de 2021, com a Portaria INPI/PR nº 37/2021, também é possível registrar marca de posição, que protege um sinal aplicado em um lugar específico de um produto.

Repare no que não está nessa lista. A sua paleta, o seu grid, a sua direção de fotografia e as suas regras de composição não entram em um pedido de registro. O que se registra é um sinal, em classes de produto ou serviço definidas. Por isso eu digo às clientes que as duas coisas se contratam separado: o projeto de identidade organiza como a marca é reconhecida, e o registro, feito por quem trabalha com propriedade industrial, cuida de quem mais pode usar aquele sinal.

O teste do sistema, e o número que não prova o que dizem

Existe um teste de trinta segundos para saber se a sua marca tem identidade visual ou tem só um logotipo. Pegue três peças suas de momentos diferentes (um post, o site e uma apresentação ou um material impresso), cubra o logotipo nas três e olhe o que sobra. Se ainda dá para saber que são da mesma marca, existe sistema. Se não dá, o que você tem é um desenho repetido em cima de três linguagens.

Em um projeto que eu conduzi, a cliente chegou com nome, logotipo, slogan e estratégia já definidos, e precisava só do sistema visual. É a exceção, e funcionou justamente porque a base já estava decidida. O caminho mais comum é o contrário: a marca tem o desenho e não tem o resto, então cada peça nova começa do zero.

E aqui entra um aviso sobre o dado que você vai encontrar em quase todo artigo sobre identidade visual e consistência de marca. A afirmação de que a marca consistente aumenta a receita em 33% vem do relatório The State of Brand Consistency, publicado pela Lucidpress em 2019. Eu fui ler o relatório. Esse 33% é a média das estimativas que os próprios respondentes deram quando perguntados quanto a receita cresceria se a marca fosse sempre apresentada de forma consistente. É opinião declarada por profissionais de marketing e donos de negócio, não receita medida. Em 2016, a mesma pergunta tinha dado 23%.

O relatório tem achados mais úteis que esse, e menos citados: 58% dos respondentes disseram que a marca aparece de forma consistente ou muito consistente em todos os lugares onde aparece, o que significa que mais de quatro em dez admitiram inconsistência. Eu prefiro usar esse. Consistência é um problema real e frequente, e isso o relatório mostra. Quanto ela faz a receita subir, ninguém mediu ali.

Perguntas frequentes

O que é identidade visual, em uma frase? É o conjunto organizado de decisões visuais de uma marca (logotipo, paleta, tipografia, elementos gráficos, fotografia, regras de composição e aplicações), feito para que qualquer peça nova seja reconhecida como daquela marca.

Qual a diferença entre identidade visual e logotipo? O logotipo é uma parte da identidade visual, a assinatura da marca. A identidade visual é o sistema inteiro, com as regras que dizem como o logotipo e tudo o mais se comportam em cada peça. Logotipo sem sistema vira um desenho que cada pessoa aplica de um jeito.

Identidade visual e branding são a mesma coisa? Branding são as decisões sobre público, posicionamento, proposta de valor, personalidade e tom de voz, e ninguém vê isso diretamente. A identidade visual é a tradução visível dessas decisões. A ordem faz diferença, porque sem as decisões a escolha visual passa a ser gosto.

Preciso registrar a minha identidade visual no INPI? O que se registra no INPI é a marca, em uma das formas de apresentação previstas no Manual de Marcas (nominativa, figurativa, mista, tridimensional) ou como marca de posição. A paleta, o grid e a direção de fotografia não entram nesse pedido. O registro garante o uso exclusivo do sinal e se contrata separado do projeto de identidade.

Dá para fazer a própria identidade visual no Canva? Dá para organizar aplicações e materiais do dia a dia. Para desenhar logotipo eu não indico, porque o desenho precisa ser vetorial e precisa de ajuste fino no traçado, e é aí que o resultado deixa de parecer um modelo que outras pessoas também estão usando.

Renata Maximina

Escrito por

Renata Maximina

Fundadora do Studio Maximina

Trabalho com profissionais e negócios que já entregam muito e ainda são percebidos abaixo disso. Dirijo marca, oferta e presença para fechar essa distância, à frente do Studio Maximina.

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